"O que nós somos agora? Porque eu me lembro bem do que nós éramos. Lembro de como éramos e de como queriamos ser. Mas e agora? Eu sinto como se não te reconhecesse. Como se a pessoa que eu conheci há alguns meses tivesse mudado totalmente de personalidade. E olha que a gente parecia conhecer um ao outro melhor do que a si próprio. Eu achei que sabia sobre todas as suas manias, seus hábitos estranhos e seus medos mais infantis. Mas você deve ter deixado de me contar alguma coisa pelo caminho ou soube esconder muito bem algumas coisas de mim. Agora a gente não passa de meros conhecidos. E é horrível ter que denominá-lo como passado. Ter que fingir que nunca aconteceu, que não foi bom e que eu não te conheço mais. Porque eu conheço ou pelos menos tive a impressão de conhecer parte de alguma coisa sua. Mesmo que a mínima possível. Você me cumprimentava com beijo na testa, abraço apertado, rodopiava ou só falava aquele “oi” estendido e preguiçoso. Hoje em dia finge que não me viu, atravessa a rua e de vez em nunca acena com a cabeça. Será que eu virei uma estranha pra você também? Será que você também não reconhece quem eu sou agora? Porque eu também mudei. Parei de esperar você voltar como fazia depois daquelas discussões sem motivos aparentes. Eu mudei. Parei de comer de madrugada e comecei a malhar. Parei de deixar tudo pra última hora, também não tenho mais o hábito de dormir de meias e agora eu já não tenho tanto medo da chuva. Eu não sou mais tão neurótica quanto ao meu peso e já parei de morder o lábio compulsivamente. Finalmente, larguei do refrigerante e bebo água diariamente, do jeito que você sempre sonhou. É, você perdeu uma grande evolução. Mas e aí? Você continua tomando café gelado? Continua dormindo sem travesseiro e já perdeu o medo de lagartixas? Você continua com aquele cheiro de shampoo barato no cabelo? Continua sorrindo pra todos os vizinhos e parou de fazer piadas idiotas? Perdeu a mania de rir nas horas erradas? E aprendeu finalmente a tomar seu remédio pra alergia na hora certa? Me conta. Você não tem mais nenhum pouco do que tinha quando eu estava na sua vida? Não restou nada do que éramos? Não restou nada de mim com você? Nenhum fio de lembrança, nem o som da minha risada? Porque tem tanta coisa sua aqui em casa ainda. Tem seu perfume, três camisas e toda uma vontade de correr pra você agora, nesse momento. Mas antes me responde, o que é que nós somos agora? Quem nos tornamos? Somos nós ainda? Eu e você como antes ou só duas pessoas estranhas? Porque se a resposta for a primeira opção, eu corro daqui até ai em dois tempos. E caso ela seja a segunda opção, eu tô indo de qualquer jeito. Porque adoraria te conhecer de novo."
~ Gabriela Machado. 
"Você precisa saber o quanto é especial. Seus olhos não tem uma cor definida, não é azul ou qualquer outro tom claro, mas não alcança o castanho escuro. Sua boca não é um desenho perfeito, mas é convidativa e esconde o sorriso mais contagiante que eu já vi. Eu sei, isso não combina comigo. Falar dessas coisas não é do meu feitio. Mas mesmo que não façam certo sentido, você precisa saber. E justamente por não ter conhecimento sobre o seu potencial, é o que te torna magnificamente doce, pura e tão intensa. Você não é só uma garota de meio metro, com bochechas grandes e cara amarrada. Você não é só uma palhaça nata e confusa por natureza. Você é daquele tipo de pessoa pelo qual não é a real motivação para que alguém mude as ideias ou perca a cabeça, mas se fosse, de certo valeria a pena. Suas indecisões são tão pertinentes que me confundem também. E eu jamais vou poder acompanhar esse seu ritmo; cheio de espontaneidade, alegria e falação. Eu não posso ser tão bom com as palavras, os gestos, o corpo e os cheiros como você. Isso porque você é maluca, enxerida, metida e aparecida. Você é especial e tem de saber disso. Onde quer que você chega, prende a atenção e a toma inteira pra si. Os holofotes simpatizam contigo. Com sua ousadia, a impaciência o jeito de fazer tudo que é errado parecer quase certo ou tudo que é complicado ser simples. Você não é como dois mais dois, mas não é uma equação impossível de resolver. É preciso paciência com quem não tem. Você é como um diamante bruto. Lapidá-la é a melhor coisa que puderam fazer. Porque você é especial e não tem a menor ideia disso. Do quanto te conhecer é interessante, irritante e maravilhoso. É um mar de mistérios, de pegadinhas e dificuldades. Você não nega um sorriso mas trancafia todos os seus sentimentos, os verdadeiros, há sete chaves. É engraçado o modo como você se odeia de manhã e se ama a tarde. Como seu humor oscila na presença de comida e o fato de você achar graça em coisas idiotas.Principalmente em mim. E eu me pergunto, como é que você pode não saber? Que sua alma é tão colorida e iluminada que cansa as vistas, mas que nos faz querer olhar. É como se fosse o sol. A gente não aguenta olhar por muito tempo, mas olha de pouquinho em pouquinho até se acostumar. Você é esse sol. É toda a sua essência. Você é como uma rosa, e seus espinhos são tão instigantes quanto suas pétalas. É isso que você causa em mim: eu sei que vai doer se chegar muito perto, mas não consigo brecar. Você tem magnetismo ou uma boa macumbeira, e mal sabe das maiorias das coisas sobre si mesma. Você é ilimitada, sem restrições. E mal sabe disso, nem faz ideia. E é justamente por isso que eu sou louco por ti: você não se conhece direito e eu tenho um mapa sobre você."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"O damo e a vabagunda, II.
— Eu não tinha reparado no quanto você é pesada.
— Eu não sou gorda!
— Sim, mas você está bêbada. E eu acho que não tenho obrigação de te carregar.
— Mas você dormiu comigo.
— E daí? Não foi um pedido de casamento.
Dormir comigo te leva a ter algumas obrigações.
— Te aguentar bêbada está na lista?
— É o primeiro item.
— E o que mais?
— Não sei, ainda estou pensando.
— Tira o dedo daí!
— Você tem cócegas?
— Tenho.
— E aqui perto da orelha?
— É tesão.
— Sua barba está mau feita.
— Você está com mau hálito. Acho que não está em condições de me apontar defeitos.
— E porque você olha diretamente nos meus olhos quando vai brigar comigo?
— É pra me certificar de que você entendeu o recado.
— E porque você olha pros seus tênis quando vai mentir?
— Deita aí.
— Me responde.
— A cama está uma bagunça. Você nem parece uma menina.
— É porque eu não sou uma.
— Sim, você é. Uma menininha mimada e nojenta.
— Pega aquele travesseiro pra mim?
— Pego.
— Pega meu edredom?
— Pego.
— Me pega também?
— Boa tentativa.
— Achei que daria certo.
— Não tiro proveito de pessoas bêbadas.
— Mentira. É que você gosta que seja especial.
— Então pra você é especial?
— Tanto faz.
— Então dorme.
— Pra você é?
— Tanto faz.
— Você mente mal.
— Você também.
— Mas eu não fico olhando pros meus próprios tênis.
— Não, você olha pros meus."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"Acho que deveríamos parar por aqui. Não é por nada não. Só não quero que isso vire o que nunca foi. Tipo um relacionamento. Eu não quero que vire uma coisa planejadinha, não quero que você fique sonhando acordado comigo ou que tenhamos que enfrentar “o mundo lá fora”. E olha, nem vou te dizer que não estou pronta pra isso ou qualquer outra desculpa covarde, não. Eu só não quero estraga essa coisa bonita que nós temos, com tanta responsabilidade. Você não precisa se entregar. A gente nunca foi uma coisa certa, eu te ligava de madrugada e você topava qualquer coisa. Desde filme de terror até sexo no quarto de hóspedes. Era uma coisa meio maluca, sem pontualidade, sem planejar, coisa que acabava por acontecer naturalmente. E foi aí que o problema surgiu. Não pode ser bom sinal, quando você começa a naturalmente ligar para uma pessoa ou sentir falta dela. Quando você naturalmente não deixa de falar com essa pessoa se quer um dia ou, naturalmente está pensando nela ou falando nela. Isso é naturalmente cilada. E eu tô saindo dessa. Caio Fernando Abreu que me perdoe, mas eu não vou remar esse barco. E você também faça o mesmo. Segue em frente. Você não precisa de mim, nunca precisou.
Eu te avisei que eu não me apaixonaria. Eu disse que as coisas não iam mudar só porque você me deixava com borboletas no estômago e mãos suando. E pode ser covardia, medo de ser feliz ou essas teorias de gente otimista demais, mas eu vou embora. Você mesmo dizia que “eu era um homem sem pênis”, e com aquele seu jeito todo tímido, ria do meu modo desbocado e da minha falta de vergonha. Eu te fiz perder a timidez e você me colocou um pouco de juízo na cabeça. Obrigada por isso também. Obrigada por todas as outras coisas que você fez por mim. Obrigada pelas massagens nos pés, os livros emprestados, a receita do bolo de cenoura e o CD dos Paralamas emprestado. Mas estou te devolvendo tudo isso. Todas as lembranças, suas coisas e teu coração, que eu tenho quase certeza que ficou comigo naquele dia que você apareceu na minha porta, todo molhado, bêbado e recitando poemas e dizendo me amar. Eu sei, era pra eu ter ficado contente. Qualquer pessoa ficaria. Mas eu não. Só me assustou, me fez correr. Porque é isso que acontece quando alguém está apaixonado, eu te disse. Acham que as pessoas viram propriedades delas.
Eu sei que vou precisar disso um dia. Vou precisar ser de alguém, me entregar, brigar, chorar, pirar, sofrer, e bla. Mas com você não. Com você eu não vou querer estragar tudo, e também não quero que você estrague. Não quero que acabe como os outros que eu tive que dispensar com desculpas como “tô voltando pra Curitiba e não volto” ou que casei. Eu não quero que a gente acabe como todo mundo acaba. Eu quero que você mantenha lembranças boas do que eu fui pra ti, quero que você goste de lembrar de mim e que não pense que eu fui uma coisa que não deu certo. Porque eu vou pensar em você como a primeira pessoa com que eu não estraguei tudo, que eu fui realmente sincera e acredite, aos poucos, fui eu mesma. Você é o primeiro que eu não desisto e o que me atura. E é por isso que a gente não pode ficar juntos. Porque você é bom demais pra mim e eu nunca fui boa coisa. E quando as coisas se complicam, eu canso, me desgasto e deixo pra lá. Só que com você eu não quero ter que chegar a esse ponto. Quando eu gostava muito de alguma coisa, eu guardava numa caixinha e escondia. Tô fazendo o mesmo contigo, mas não tenta se achar, porque o esconderijo é interno e acho difícil você encontrar."
~ “O damo e a (ex) vagabunda.” Gabriela Machado. 
"Você nunca foi fã daquele meu namorado baixinho. Nem do que tinha mania de perseguição ou o que era vegetariano. Odiou aquele que tirou minha virgindade e nunca entendeu porque é que eu havia ficado tanto tempo com aquele metido a valentão, no ensino médio. Eu me corroía de ciúmes calada, vendo suas mil e uma namoradas entrarem e saírem da sua casa a cada fim de semana. Uma mais indiscreta, sem noção ou peituda, do que a outra. Mas eu não era uma delas, e por isso gostava de você. Eu não precisava bater na porta para entrar na sua casa, não precisava chamar sua mãe de “senhora” e não era substituída por nenhuma loira da bunda maior que a própria cabeça. Você sabia até do meu ciclo menstrual, o quanto eu odiava o inverno e filmes de terror. Nunca deu risada das minhas manias estranhas e assistia Diário de Uma Paixão ao meu lado, a cada término de namoro. A gente era o que ninguém jamais seria. “Melhores amigos? Amantes? Um casal?” Eu te perguntava todas as noites em que você dormia escondido lá em casa, e você respondia seguido de um bocejo: “Somos o que quisermos ser”, e dormia. Mas eu continuava com meus namorados, meus planos para o futuro e sonhava com um marido, três filhos e morar no interior. Você queria ser rico, comprar um carro para cada dia da semana e ir morar em um país em que bigamia fosse permitido. Éramos o que queríamos ser, principalmente opostos. Eu gostava de chá gelado, vodca e coca-cola. Você amava café, whisky e pepsi. Íamos todas as terças-feiras na mesma sorveteria para ficar reparando ou falando da vida dos outros, e ouvir aquela velhinha que quase sempre estava dormindo atrás do balcão dizer, “isso pode dar em casamento!”. Podia mesmo. Mas nunca deu. Te conheci na praça pertinho da escola, você andando de bicicleta e eu procurando meus óculos. Seu pneu encontrou-os por mim. E desde os 6 anos, nós eramos quase que inseparáveis. Mas nunca deu em nada. Nem em casamento, nem em namoro. Foi só alguns beijos atrás da igreja e algumas noites escondidos no seu quarto. Jamais poderia ter dado em algo. Mesmo meus pais te considerando quase um genro e sua mãe amando cozinhar pra mim, nós nunca fizemos parte um dos planos do outro. Mesmo que eu tivesse uma quedinha por você e você tendo ciúmes de tudo que tentasse se aproximar de mim, mesmo eu amando o jeito que você se arrumava e você dizendo que eu tinha “o melhor beijo de língua da cidade”, mesmo seu café tendo cheiro de vida mansa e eu andando de mãos dadas com você sem problema algum, até mesmo namorando. Mesmo no fundo, um amando o outro sem admitir ou saber, nós nunca ficamos juntos. Porque poderíamos ser o que quisermos. Menos um do outro."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"É ridículo o jeito que eu fico quando você está por perto. E eu me odeio por isso. Por não conseguir me controlar. Por minhas mãos tremerem e pelo calor e o frio que revezam passear pelo meu corpo. E aí você abre a boca e eu esqueço tudo e todo o mal que você já me fez. Como se teu semblante me anestesiasse. Posso até jurar que caso você me esbofeteie, eu não sentirei nada. E cara… Não me toca. Não toca mesmo. Não chega perto do pescoço, e fica longe da minha cintura. Eu odeio a reação que seu toque tem sobre meu corpo. Eu não gosto dessas coisas, não gosto de me sentir dominada por um sentimento maior que meu ego. E pior: esse maldito sentimento vem diminuindo meu orgulho e fazendo eu me tornar uma manteiga derretida. Isso é tão bom que está me destruindo. Eu não quero sentir o cheiro do seu perfume do nada. E também não quero me sentir alcoolizada quando me vejo em seus olhos. E não quero me contradizer quando penso no seu sorriso ou em tudo que você é. Então, por favor, você pode ir embora? Porque eu tenho medo, cara. Eu sou covarde, egoísta e racional demais. Eu sou um cálculo e não um sentimento. Porque diabos você acha que pode me mudar? Vai. Vai logo. Vai embora e não olha pra trás. E não se atreva a perguntar se eu tenho certeza disso. Porque com certeza eu direi que não. Não fica tentando me decifrar, não fica tentando me resolver. Para de agir como se eu fosse coisa boa pra você, como se eu fosse pra você. Para de me fazer pensar positivo! Para de ter controle sobre mim. Eu abomino a confusão que você causa em minha cabeça, porque eu fico me sentindo na fronteira do céu e do inferno. E o pior é que tenho a maldita sensação de que os dois caminhos vão me levar até você."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"O damo e a vabagunda, II.
— Eu não tinha reparado no quanto você é pesada.
— Eu não sou gorda!
— Sim, mas você está bêbada. E eu acho que não tenho obrigação de te carregar.
— Mas você dormiu comigo.
— E daí? Não foi um pedido de casamento.
Dormir comigo te leva a ter algumas obrigações.
— Te aguentar bêbada está na lista?
— É o primeiro item.
— E o que mais?
— Não sei, ainda estou pensando.
— Tira o dedo daí!
— Você tem cócegas?
— Tenho.
— E aqui perto da orelha?
— É tesão.
— Sua barba está mau feita.
— Você está com mau hálito. Acho que não está em condições de me apontar defeitos.
— E porque você olha diretamente nos meus olhos quando vai brigar comigo?
— É pra me certificar de que você entendeu o recado.
— E porque você olha pros seus tênis quando vai mentir?
— Deita aí.
— Me responde.
— A cama está uma bagunça. Você nem parece uma menina.
— É porque eu não sou uma.
— Sim, você é. Uma menininha mimada e nojenta.
— Pega aquele travesseiro pra mim?
— Pego.
— Pega meu edredom?
— Pego.
— Me pega também?
— Boa tentativa.
— Achei que daria certo.
— Não tiro proveito de pessoas bêbadas.
— Mentira. É que você gosta que seja especial.
— Então pra você é especial?
— Tanto faz.
— Então dorme.
— Pra você é?
— Tanto faz.
— Você mente mal.
— Você também.
— Mas eu não fico olhando pros meus próprios tênis.
— Não, você olha pros meus."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)