"É ridículo o jeito que eu fico quando você está por perto. E eu me odeio por isso. Por não conseguir me controlar. Por minhas mãos tremerem e pelo calor e o frio que revezam passear pelo meu corpo. E aí você abre a boca e eu esqueço tudo e todo o mal que você já me fez. Como se teu semblante me anestesiasse. Posso até jurar que caso você me esbofeteie, eu não sentirei nada. E cara… Não me toca. Não toca mesmo. Não chega perto do pescoço, e fica longe da minha cintura. Eu odeio a reação que seu toque tem sobre meu corpo. Eu não gosto dessas coisas, não gosto de me sentir dominada por um sentimento maior que meu ego. E pior: esse maldito sentimento vem diminuindo meu orgulho e fazendo eu me tornar uma manteiga derretida. Isso é tão bom que está me destruindo. Eu não quero sentir o cheiro do seu perfume do nada. E também não quero me sentir alcoolizada quando me vejo em seus olhos. E não quero me contradizer quando penso no seu sorriso ou em tudo que você é. Então, por favor, você pode ir embora? Porque eu tenho medo, cara. Eu sou covarde, egoísta e racional demais. Eu sou um cálculo e não um sentimento. Porque diabos você acha que pode me mudar? Vai. Vai logo. Vai embora e não olha pra trás. E não se atreva a perguntar se eu tenho certeza disso. Porque com certeza eu direi que não. Não fica tentando me decifrar, não fica tentando me resolver. Para de agir como se eu fosse coisa boa pra você, como se eu fosse pra você. Para de me fazer pensar positivo! Para de ter controle sobre mim. Eu abomino a confusão que você causa em minha cabeça, porque eu fico me sentindo na fronteira do céu e do inferno. E o pior é que tenho a maldita sensação de que os dois caminhos vão me levar até você."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"O damo e a vabagunda, II.
— Eu não tinha reparado no quanto você é pesada.
— Eu não sou gorda!
— Sim, mas você está bêbada. E eu acho que não tenho obrigação de te carregar.
— Mas você dormiu comigo.
— E daí? Não foi um pedido de casamento.
Dormir comigo te leva a ter algumas obrigações.
— Te aguentar bêbada está na lista?
— É o primeiro item.
— E o que mais?
— Não sei, ainda estou pensando.
— Tira o dedo daí!
— Você tem cócegas?
— Tenho.
— E aqui perto da orelha?
— É tesão.
— Sua barba está mau feita.
— Você está com mau hálito. Acho que não está em condições de me apontar defeitos.
— E porque você olha diretamente nos meus olhos quando vai brigar comigo?
— É pra me certificar de que você entendeu o recado.
— E porque você olha pros seus tênis quando vai mentir?
— Deita aí.
— Me responde.
— A cama está uma bagunça. Você nem parece uma menina.
— É porque eu não sou uma.
— Sim, você é. Uma menininha mimada e nojenta.
— Pega aquele travesseiro pra mim?
— Pego.
— Pega meu edredom?
— Pego.
— Me pega também?
— Boa tentativa.
— Achei que daria certo.
— Não tiro proveito de pessoas bêbadas.
— Mentira. É que você gosta que seja especial.
— Então pra você é especial?
— Tanto faz.
— Então dorme.
— Pra você é?
— Tanto faz.
— Você mente mal.
— Você também.
— Mas eu não fico olhando pros meus próprios tênis.
— Não, você olha pros meus."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"Eu não quero um romance. Não quero nem o amor. Não quero isso. Essa porra toda. Só fode com a gente e estraga todo o nosso português. Amor quando não é piegas, vira palavrão. Relacionamento quando não vira o “amor da sua vida”, vira o exemplo do porquê não tentar de novo. Por isso eu não quero. Porque não tem um meio termo, entende? Ou você se dá super bem, morre na overdose da euforia e casa, tem filhos e um cachorro legal, ou você acaba quebrado, lascado, dolorido, impaciente, intolerante, solitário e com uns três gatos tão carentes quanto você. É triste ter que pular na água gelada ou olhar da areia a galera se divertir. Você não pode só molhar o dedinho do pé. Eu não sei se quero isso. É tão traiçoeiro, você acha que é igual aos filmes, ou pelo menos igual ao casal de amigos super-felizes-apaixonados-e-de-bem-com-a-vida que você conhece desde que nasceu, mas não é não. Tu se arrisca, experimenta e quando vê, está na merda. O pior de tudo é que você até acha normal, porque todo mundo precisa se dar mal pra depois ficar bem, só que comigo não é assim. Eu tenho algum tipo de distúrbio. Só vou até a parte do “se dar mal” e fico por lá mesmo. Sem evolução. E eu não sou o tipo de pessoa que nunca sonhou com um final feliz. Eu já tive meus onze anos e lá, Disneyland era meu futuro. Eu já sonhei em beijar um sapo e casar com o príncipe. E daí? Eu já acreditei mesmo e se você não, que diabos foi sua vida? Só que eu cresci e veio todo aquele papo óbvio. Eu estraguei tudo. Então eu não quero isso. Não quero envolvimento, não quero entrega, não quero entrar na água gelada e morrer feito picolé, não quero me afundar no barco sozinha, não quero ter que lutar mais um pouco. Porque sou medrosa, cagona, e não ando com muito preparo psicológico pra quebrar mais uma vez a cara. Eu não quero me arriscar de novo, e eu quero, pelo menos uma vez na vida, ter a frieza e o dom de poder escolher. Porque eu não consigo controlar as coisas e meus sentimentos. E quando eu pude, escolhi tudo errado. Então eu só não quero perder os sentidos, o comando. Não quero um romance de novela, não quero um filme clássico, não quero um seriado adolescente, não quero choros, não quero perder a cabeça, não quero ter que beber pra esquecer, não quero ter que odiar ninguém, não quero viver agarrada ao telefone esperando uma mensagem, não quero entupir minha mente com a imagem de alguém, não quero ser o “mô” de um qualquer. Só quero não ter que viver isso e, por favor, se há algum tipo de medicamento ou macumba pra não precisar ou sentir falta do amor, me comunique. E caso eu precise, que alguém venha e esfregue esse texto na minha cara até eu entender que caso eu siga adiante, vai dar merda."
~ “Esse é um lembrete.” Gabriela Machado
"Você é a cocaína da minha vida. Quando te conheci, estar com você fazia de mim uma pessoa totalmente diferente e consequentemente melhor. E a ilusão de ser realmente feliz ao seu lado me manteve presa a você durante todo esse tempo. Você é uma droga, cara. Fiquei perto de você e adorei. Cheguei ao ponto de precisar de você a cada segundo, todos os dias. E aí, só consegui me dar conta do enorme vício que tu havia se tornado, quando eu já estava em abstinência. E eu dúvido que pra esse tipo de vício, exista reabilitação."
~ Gabriela Machado. 
"Ele não era o cara certo. É triste, irritante e perturbador. Mas ele não era. Não abria a porta do carro, achava normal rachar a conta no primeiro encontro e adorava sexo em público. Ele era normal. Nem alto, nem baixo, nem magro e nem gordo. Nem lindo de morrer nem feio de correr. Mas tinha um sorriso de menino travesso e os olhos mais doces do mundo. Só os olhos. E a gente nem tinha muita coisa em comum. Mas também odiava motel barato e gente efusiva. Ele provavelmente não era o cara certo. Não tinha paciência quando eu estava de tpm e não era do tipo romântico. Nunca me deu flores, nunca beijou meu olho ou recitou um poeminha clichê. Nunca nunquinha. Mas sempre beijava minha testa ou o topo da cabeça. Segurava minha mão sempre que dava e tinha os melhores dedos pra fazer cócegas. Ele era meio irresponsável, dirigia sem carta de motorista e xingava velhinhas no trânsito. Mas sempre me poupava das suas grosserias ou daquele cigarro maldito. E coitada de mim se eu fumasse. Ele agia feito meu pai e tirava do sério até minhas amigas virtuais. Não tava nada certo. Ele não era o cara. Minha mãe achava que ele merecia um par de tênis novo e meu pai tinha preconceito com sua cara meio amarrada. Mas eles até gostavam dele. Porque por algum motivo idiota, eu parecia feliz. Eu também odiava seu cabelo todo bagunçado e não era fã daquela sua amiga meio mestiça. Ele não perguntava se tava tudo bem, não fazia questão de ouvir um “eu te amo” todos os dias e não tinha todo o tempo do mundo pra mim. Então, o cara certo com toda certeza não podia habitar o mesmo corpo que ele. Mas ele simplesmente sabia que tava tudo bem ou tudo mal. Ou que eu o amava, todos os dias e sempre um pouco mais. E o pouco tempo que tinha, era meu. Não precisava compartilhar atenção com ninguém. Era eu, ele e sua cachorra ciumenta. E eu também não gostava do seu gênio forte e da sua tendência a fazer burrada na maior parte do tempo. Não gostava do seu perfume enjoativo e nem daquela cueca xadrez. E ele tinha um jeito estranho e inteligível de me acalmar ou me mandar calar a boca. Então, em algum momento, entre as amigas contra e as briguinhas pelo telefone, ele parecia ser o cara. E eu não tô dizendo que sou louca por ele ou que consegui mudar o seu teu jeito meio burrão de ser. Nada disso. Na verdade, eu não ligo se ele bebe mais do que os caras do boteco ali da esquina ou se me dá um bolo às vezes. Eu só não acho que ele possa ser o cara certo ou o errado quando na verdade, ele é o cara."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"Eu não sou mais a sua garotinha, pai.
Eu já não sei cantar aquelas cantigas de antigamente. Também não sei mais pilotar aquela bicicletinha rosa que você me deu há uns anos atrás. Ainda não sei fazer um achocolatado tão bom quanto o seu e minhas mãos, aquelas que eram pequeninas e gordas, já não são menores que as suas. Eu me esqueci de muita coisa, pai. Coisa que não era importante e coisas que eu achei que jamais poderia esquecer. Tipo esquecer o nome do meu personagem favorito daquele desenho animado que você assistia comigo, nas tardes de sexta-feira. Sua garotinha cresceu, pai. E das muitas coisas que esqueci enquanto crescia; lembrei de poucas que você me alertava. Quando os meninos me pediam para brincar de médico, eu nunca aceitei. Também nunca aceitei que aquelas garotas grandalhonas da escola, gritassem comigo. Aprendi a gritar mais alto, acho que isso é coisa da mamãe. Também aprendi a ver o mundo da maneira que você vê. Sempre bem humorado, fazendo palhaçada de tudo, mas quando preciso, perdendo o controle e gritando aos quatro ventos. Acho que sou sua xerox, só que eu nasci um órgão meio diferente.
Não me esqueci também de olhar para atravessar a rua pelo menos umas trinta vezes. Eu não olho trinta, se quer duas ou três vezes e não é sempre que espero o farol fechar. Desculpe por isso, não sou tão obediente assim. Também tomei meus cuidados na hora de namorar. O problema é que, muitas vezes protegi minha integridade e deixei meus sentimentos serem corrompidos. Doeu mais do que aquela vez em que eu cortei o dedo brincando com a faca. Doeu, pai. Mais do que às vezes em que eu ralei os joelhos e tive de enfrentar o sabonete no banho. Doeu bem mais do que já tinha doído antes. E disso, você não me avisou. Avisou que gatos não eram animais confiáveis, avisou que estudar era essencial e que para estranhos não se dá informação. Avisou que minha mãe era um perigo na tpm, e jurou que eu também seria assim. Avisou que tomar refrigerante sem comer nada é perigoso e não me deixou esquecer de escovar os dentes. Isso, até hoje. Mas pai, e sobre todas aquelas outras coisas da vida? As decepções, os relacionamentos, o coração quebrado, o medo, a insegurança. Pai, você avisou pra ter fé, e essa que nunca faltou, foi o que me manteve de pé quando as coisas só queriam me derrubar. Acho que você não avisou que a vida não tinha só sabor de toddynho e leite moça, porque se tivesse assim o feito, eu não aprenderia tão bem quanto aprendi sozinha, sem avisos prévios.
Pai, sua menina cresceu. Aprendeu a ler, escrever e jogar baralho. Eu não sou mais a sua garotinha, pai. Agora sou uma mulher."
~ Gabriela Machado.
"O damo e a vabagunda, II.
— Eu não tinha reparado no quanto você é pesada.
— Eu não sou gorda!
— Sim, mas você está bêbada. E eu acho que não tenho obrigação de te carregar.
— Mas você dormiu comigo.
— E daí? Não foi um pedido de casamento.
Dormir comigo te leva a ter algumas obrigações.
— Te aguentar bêbada está na lista?
— É o primeiro item.
— E o que mais?
— Não sei, ainda estou pensando.
— Tira o dedo daí!
— Você tem cócegas?
— Tenho.
— E aqui perto da orelha?
— É tesão.
— Sua barba está mau feita.
— Você está com mau hálito. Acho que não está em condições de me apontar defeitos.
— E porque você olha diretamente nos meus olhos quando vai brigar comigo?
— É pra me certificar de que você entendeu o recado.
— E porque você olha pros seus tênis quando vai mentir?
— Deita aí.
— Me responde.
— A cama está uma bagunça. Você nem parece uma menina.
— É porque eu não sou uma.
— Sim, você é. Uma menininha mimada e nojenta.
— Pega aquele travesseiro pra mim?
— Pego.
— Pega meu edredom?
— Pego.
— Me pega também?
— Boa tentativa.
— Achei que daria certo.
— Não tiro proveito de pessoas bêbadas.
— Mentira. É que você gosta que seja especial.
— Então pra você é especial?
— Tanto faz.
— Então dorme.
— Pra você é?
— Tanto faz.
— Você mente mal.
— Você também.
— Mas eu não fico olhando pros meus próprios tênis.
— Não, você olha pros meus."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"Eu não pertenço à você. Eu te amo, adoro sua maneira de ser e o jeito como você sorri. Adoro tudo em você, os pés, as mãos, os olhos, os ombros e o bumbum. Eu sou vidrada na sua personalidade e arrasto um avião por você. Mas não te pertenço. Não sou sua propriedade. Posso amar você e seus dotes culinários, mas não vim ao mundo pra me prender à ninguém. É claro que a gente pode noivar, ter uns três filhos e uma casa de campo, mas eu não vou ser sua. Não vou viver em baixo da sua asa e nem fazendo tudo o que você manda. Eu não vou ser sua empregada amorosa, querido. Saiba disso. Eu posso amar seu cabelo arrepiadinho, sua voz rouca e sua pessoa por inteira. Mas a única dona que terei, será eu."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)
"O amor estraga tudo.
“Pratique o amor, faça ele valer a pena!”. Uma frase como essa seria perfeita para uma pessoa que, por alguma contrariedade do destino ou sorte suficiente para ganhar na mega sena três vezes, se dá bem em todos os seus relacionamentos e mais, sai intacto no final deles. Mas como eu não sou essa pessoa e nunca vou ser, não acho que essa frase seria uma das minhas favoritas. Nada contra o amor, ele é tão lindo. O amor é um diamante bruto. A gente tem de lapidar, tem de deixar maravilhoso, brilhante e quando não, de causar inveja. Amor pra querer roubar. Amor pra ser valioso, pra valer a pena e as dores. Só que às vezes, toda essa beleza não compensa toda a imperfeição que suas consequências causam. Me perdoem os apaixonados pelo que vou dizer agora, mas o amor estraga tudo. Porque a gente não sabe usar. É como o pó-de-pirlimpimpim, se a Emília não soubesse para onde se teletransportar, acabaria em lugar nenhum. A gente não sabe usar o amor. E é justamente por isso que ele vem estragando amizades de anos, rompendo corações e deixando tanta gente amarga e com promessas de “nunca mais”. Deviam haver livros de auto-ajuda, um manual com instruções de “onde aplicar esse tal de amor”. Aliás, em quem aplicar esse amor. Porque esse devia ser o nosso direito, não? Já que colocamos nosso doce e até então saudável coração à beira do precipício, pelo menos tínhamos de ter o controle sobre pra quem iriamos entregá-lo. E aí, a maior parte dos problemas no mundo seriam resolvidos. E só nos restaria a fome e a cura para algumas doenças. Só que aí, de qualquer jeito, não seria amor. Amor fácil assim, com a pessoa certa e com finais felizes todos os dias, sem briguinhas e chorumelas, sem gente pra interferir e um ciúmes pra te fazer pirar, amor assim pode ser qualquer coisa, menos amor de verdade. E esse amor, ele sempre estraga tudo. Mas ele conserta. Ele se regenera, se renova e volta a ser diamante bruto. Pra gente cuidar de novo e nunca deixar de fazer com que ele estrague. Porque a grande ironia nisso tudo é que, se pudéssemos escolher pra quem entregaríamos nosso amor, ainda assim escolheríamos a pessoa errada."
~ Gabriela Machado. (via copodeleite)